Tem muita conversa tributária rodando e, no fim, o dono de supermercado só fica mais confuso do que com clareza. O ponto prático é simples: a virada que aperta de verdade está em 2027, e quem chegar lá sem caixa e sem método de precificação vai sofrer.
Até lá, a prioridade é organizar o financeiro e ajustar a forma de calcular margem e preço. Quem está trabalhando no “jeitinho” vai perder espaço, porque o modelo muda e não vai dar para empurrar do mesmo jeito.
O que importa agora: em 2027 você precisa ter caixa
O desconto do imposto no ato da venda (CBS e IBS) está colocado para 2027. Em 2026, a orientação prática é não gastar energia com especulação: usar o tempo para chegar em 2027 com caixa parado.
Se for fazer investimento em 2026, faça, mas com uma regra: não pode entrar em 2027 sem caixa. Sem isso, a conta não fecha e a alternativa vira empréstimo com juros altos, num cenário em que o dinheiro está caro.
O impacto operacional: você vai receber já descontado
Com a mudança, a lógica de repasse tende a ficar mais “na hora”: você paga no dia, já debita no dia. Na prática, o efeito para a operação é direto: o recebimento vem já descontado, seja no cartão ou no Pix.
- Cartão: a venda pode até ter prazo de recebimento, mas o desconto entra na origem.
- Pix: a tendência é cair já com desconto.
Isso é mais um motivo para a gestão de caixa ser a sua prioridade real, não um tema “contábil”.
Regime tributário: supermercado, em geral, é lucro real
Existe simples nacional, lucro presumido e lucro real. No varejo supermercadista, a realidade mais comum é lucro real, com poucas exceções. Se a orientação for colocar supermercado no presumido, isso é um sinal de alerta.
Além disso, existe um risco prático: muitos sistemas e contabilidades ainda não estão adequados para o que vem pela frente. Então 2026 é o ano de aprender o básico do funcionamento do imposto e do planejamento tributário para tomar decisão com segurança.
A grande virada: sair do markup/margem bruta e dominar a margem líquida do sistema
A mudança mais importante para o dia a dia da loja é na precificação. Hoje muita gente precifica por markup (margem sobre o custo) ou por margem bruta sobre a venda. Com o imposto vindo “por fora”, o jogo muda.
As três formas de precificar que você precisa entender
1) Markup (margem sobre o custo)
- Preço de venda = custo x (1 + percentual)
- O percentual é o lucro que se quer colocar sobre o custo.
2) Margem bruta sobre a venda
- Preço de venda = custo / (1 – percentual de lucratividade)
3) Margem líquida (dos sistemas)
- É a margem que, em quase todos os sistemas, já considera a retirada de impostos.
Quem já precifica por margem líquida do sistema tende a ter menos dificuldade, porque a lógica já “enxerga” imposto no cálculo. Quem está na margem bruta vai bater de frente, porque aquela margem que parecia 30% pode virar outra coisa na prática (24%, 26%, 28%), já que o imposto deixa de estar “por dentro”.
Um exemplo que mostra por que sua margem “some” na mudança
Imagine um produto que custa R$ 10 e é vendido a R$ 13, com R$ 3 de lucro. Quando entra imposto sobre esse lucro, o lucro real cai.
- Antes: lucro de R$ 3 em preço de venda R$ 13 gera margem bruta de aproximadamente 23,07% (3 ÷ 13).
- Após considerar imposto (exemplo citado): lucro aproximado de R$ 2,48 em preço de venda R$ 13 gera margem de aproximadamente 19,07% (2,48 ÷ 13).
O efeito é direto: se você seguir “botando preço” com a margem de sempre, sem tirar o imposto no cálculo, você vai errar a precificação e perder resultado sem perceber.
O que muda na prática: menos improviso e mais método
Vai ter produto isento? Vai. Vai ter produto com alíquota diminuída? Vai. Mas o ponto central, para o dono de supermercado, é que os decretos e distorções tendem a cair, e o ambiente fica menos “maleável” para quem operava com atalhos.
Negócio não para por isso: empresário se adapta. Só que a adaptação aqui é muito objetiva: caixa + precificação correta + domínio do imposto no dia a dia.
Como colocar isso em execução agora
- Separar e preservar caixa: planejar 2026 sem consumir todo o caixa e chegar em 2027 com caixa parado.
- Rever investimentos: se investir em 2026, garantir que a loja não entra em 2027 “no limite”.
- Auditar a precificação: identificar se a loja precifica por markup, margem bruta ou margem líquida do sistema.
- Migrar o raciocínio para margem líquida: ajustar o jeito de calcular para não “perder margem” quando o imposto vier por fora.
- Checar suporte do sistema e da contabilidade: confirmar se estão preparados para operar com as mudanças e se o direcionamento de regime faz sentido para supermercado.