Falta gente para trabalhar e, quando aparece, o salário pedido é mais alto. Isso não é “fase”: é oferta e demanda de mão de obra funcionando do jeito mais duro para o supermercado. Enquanto não ajusta, o caminho é se adaptar com método: controlar o percentual de pessoal, ajustar margem e preço com inteligência e usar tecnologia para reduzir dependência de mão de obra.
O pior erro é tentar resolver isso só “no grito” (cortando custo no escuro ou aumentando preço sem critério). Dá para organizar e atravessar esse cenário com decisões práticas e executáveis.
Entenda o que mudou: oferta e demanda de mão de obra
Quando existe muita oferta de mão de obra, os salários tendem a cair, porque as pessoas aceitam trabalhar por menos. Quando existe pouca oferta e muita demanda, os salários sobem.
Hoje o cenário é exatamente esse: pouca oferta e muita gente procurando funcionário. E é importante enxergar que a disputa não é só com outro supermercado. A disputa é com banco, indústria, distribuidor e qualquer empresa que ofereça mais estrutura, perspectiva e condições. Se o seu supermercado não se adaptar, vai ficar sempre “apagando incêndio” de escala.
Coloque despesa de pessoal no trilho (e saiba o que entra nessa conta)
Para tomar decisão certa, primeiro é preciso entender o alvo de despesa:
- Despesa de pessoal: precisa ficar em torno de 8%; se o faturamento for menor que 10 milhões, pode ir até 10%; se for maior que 10 milhões, trabalha no patamar menor.
- Folha em si (apenas salários): fica entre 4% e 5,5% (não mais que isso).
E atenção: despesa de pessoal não é só salário. Entra tudo: PIS, INSS patronal, rescisões, contratação, uniforme, benefícios, cesta básica e qualquer gasto que você der para o funcionário.
Ter clareza dessa composição evita dois erros comuns: achar que “a folha estourou do nada” ou subir salário sem saber qual margem precisa sustentar isso.
Se precisar pagar mais, faça do jeito certo: suba salários onde está doendo e cubra com 1% de margem
Com mão de obra mais escassa, a recomendação prática é trabalhar com aumento para destravar vagas críticas. Não é para aumentar todo mundo de uma vez. É para ajustar os cargos onde a dificuldade de contratação/ retenção está maior (ex.: açougueiro, caixa, repositor).
O ajuste sugerido é de 10% a 20% a mais nesses cargos. Só que isso exige cobertura financeira: para bancar uma folha mais cara, é preciso melhorar a margem de lucro em 1%.
- Se a margem está em 30%, o alvo passa a ser 31%.
- Se está em 28%, o alvo passa a ser 29%.
Na prática, o supermercado repassa custo: luz, água, aluguel e mão de obra pressionaram, o preço precisa ser trabalhado. Mas isso não significa reajustar tudo “no automático” sem critério.
Preço não é só “aumenta 1% em tudo”: cuide dos notáveis e compense no resto
Existe uma trava real: os itens notáveis (como arroz, óleo, açúcar) precisam acompanhar concorrência. Você não consegue mexer neles do jeito que gostaria porque eles formam percepção imediata de preço.
Por isso, quando a conta pede “1% a mais de margem”, na vida real você tende a ter que ajustar mais do que 1% em outros itens, para compor uma margem média, já que parte do mix fica mais amarrada pela concorrência e pelas promoções.
O ponto prático é: aprenda a trabalhar preço com a lógica de margem média, sem perder o controle dos itens que ditam a imagem de preço do seu supermercado.
Benefícios podem segurar gente sem virar aumento direto de salário
Nem sempre a solução é só salário. Existe espaço para complementar a remuneração com benefícios, ajudando retenção e sobrevivência do time.
- Separar algo como 10% da média do salário para vale refeição/vale alimentação, agregando valor de forma prática.
- Cesta básica para quem não faltar, como bônus extraordinário (com cuidado para não atrelar diretamente ao salário).
- Cartão prêmio (modelo em que a empresa emite nota de despesa e você premia o funcionário; ele pode migrar benefícios).
O objetivo aqui não é “ser bonzinho”. É criar ambiente e cultura melhores, e competir por mão de obra com mais estrutura.
Adote tecnologia para reduzir dependência de gente (sem fazer errado)
Com a mão de obra mais cara e mais difícil, tecnologia deixa de ser “projeto” e vira ferramenta de sobrevivência.
Um exemplo direto é o self checkout: ele pode substituir o volume de 4, 5 ou até 6 operadoras de caixa por turno, com uma operadora acompanhando. O erro comum é colocar fiscal de caixa para ficar no self checkout; assim não funciona como redução de equipe. A lógica é ter menos gente operando e acompanhando o processo.
Outro exemplo é buscar software para reduzir atividades manuais como entrada de nota automática. Se hoje existe uma equipe grande só para dar entrada em nota, a automação permite ficar com uma pessoa para revisão/controle, em vez de várias pessoas fazendo digitação e conferência do básico.
Se a escala 5×2 entrar, já saiba a conta (e o que fazer)
Se a jornada 5×2 entrar, o custo de pessoal tende a subir em 14,28%. Para visualizar: se a folha hoje é 5,5%, pode subir para algo perto de 6,28% (uma variação em torno de 0,78 ponto). Traduzindo em gestão: a margem de lucro precisa crescer cerca de 0,79 para absorver isso.
Na prática, de novo, volta para preço e margem: você vai ter que ajustar o mix para fazer essa margem aparecer, sem perder competitividade nos itens notáveis.
Consignado e apostas estão virando rotatividade invisível (e dá para agir)
Está aumentando a perda de colaboradores por descontrole financeiro: empréstimo consignado que a pessoa não aguenta pagar e apostas/jogos consumindo renda. Isso estoura no supermercado como pedido de demissão e busca por informalidade.
Uma ação prática é apoiar o time com educação financeira: orçamento mensal, não gastar tudo, separar parte para reserva, entender que empréstimo não é salário. Quando o funcionário organiza a vida financeira, você reduz uma rotatividade que parece “sem motivo”, mas está drenando gente boa.
Para executar a partir de hoje
- Separe folha (salário) de despesa total de pessoal (encargos e tudo o que envolve funcionário) e compare com os alvos: 8% a 10% para a despesa total e 4% a 5,5% para a folha.
- Liste os cargos mais difíceis de contratar/reter e ajuste só eles em 10% a 20%.
- Defina a meta de margem para sustentar a mudança (em geral, +1% de margem) e trabalhe preço com foco em margem média.
- Mantenha os notáveis sob controle (arroz, óleo, açúcar) e compense a margem nos demais itens do mix.
- Revise benefícios: vale alimentação/refeição, cesta por presença e cartão prêmio como alternativas práticas de retenção.
- Escolha uma tecnologia para atacar mão de obra agora: self checkout operado do jeito certo ou automação de entrada de nota para reduzir equipe em tarefas manuais.
- Inclua educação financeira como rotina de suporte ao time para reduzir desligamentos por consignado e apostas.