Prevenção de perdas no supermercado não é um assunto “secundário” nem algo que se resolve só com segurança na porta. Perda machuca direto a última linha e, em muitos casos, representa uma parte enorme do lucro indo embora sem ninguém perceber direito.
O problema é que muita gente só olha para venda, lucro e despesas, e deixa a perda como se fosse “normal do varejo”. Quando o dono enxerga a perda como uma variável de gestão (e não como fatalidade), abre-se uma oportunidade prática: sobrar mais dinheiro no fim do mês reduzindo o que já está escapando.
Por que a prevenção de perdas vira o calcanhar de Aquiles
Vejo dois pontos que travam a maioria dos supermercados.
- Falta de visão de oportunidade: muita gente não enxerga que reduzir perda é aumentar lucro. A perda sai do bolso do dono. É dinheiro que seria dele e vai embora.
- Falta de gestão de estoque: sem controle de estoque, o dono nem consegue “ver” onde a perda está acontecendo. Aí tenta começar pelo caminho mais visível (segurança/furto), sem antes organizar o básico.
Prevenção de perdas não é só furto (e isso muda sua prioridade)
Existe uma crença muito comum: “prevenção de perdas = pegar furto”. Furto importa, mas não é a maior parte do problema. Uma parcela menor do total está nos furtos; a maior parte vem de dentro, por falhas operacionais.
Quando o supermercado decide atacar prevenção só com foco em “pegar ladrão”, ele corre o risco de investir energia no lado errado e continuar sangrando por dentro: processos mal executados, controle fraco e rotinas sem conferência.
O erro clássico: querer segurança antes de controlar a quebra e o estoque
Muita operação ainda não controla a quebra (perda identificada), como produto vencido, avaria e outros problemas. Também não faz inventário com regularidade. Mesmo assim, tenta “resolver” colocando segurança na porta.
O caminho mais sólido é inverter a lógica: primeiro dar visibilidade para a perda por meio da gestão de estoque e do controle da quebra. Sem isso, o dono fica no escuro e qualquer ação vira chute.
Prevenção é feita pela operação (e não por um batalhão)
Uma virada importante é entender que prevenção de perdas é feita pela operação. Durante muito tempo, muita empresa tentou resolver com equipes grandes de segurança e prevenção. Essa realidade não se sustenta: custo alto e pouca eficiência se a operação continua com falhas.
O que fica de lição prática:
- Em vez de “encher” a loja de gente de prevenção, prepare o time da operação.
- Treine mais as pessoas para executar o básico bem feito, porque é aí que mora a maior parte da perda.
Dor de dono: o funcionário não vai ter, então o sistema tem que funcionar
Um ponto duro, mas real: o funcionário não vai ter dor de dono. O dono acorda todo dia com contas para pagar e recomeça no zero no dia seguinte. Quem sente a perda no bolso é o dono.
Isso não significa desistir do time. Significa parar de esperar que a consciência resolva tudo sozinha e montar uma gestão que:
- Mostre onde a perda acontece (estoque e quebra sob controle).
- Dê rotina e padrão para a operação executar.
- Reduza espaço para falha operacional e para desvios.
Desvio de caráter e cumplicidade: o que o dono precisa encarar
Existe outro lado que não dá para romantizar: tem situações que não são “erro”, são desvio de caráter. E tem um ponto ainda mais perigoso: a pessoa que vê algo errado e não fala, aceita. Quem vê e se cala vira cúmplice.
Na prática, isso reforça uma decisão de gestão: confiar só em “boa intenção” é frágil. Se o dono quer reduzir perda de verdade, precisa criar um ambiente operacional em que desvios e falhas sejam mais difíceis de acontecer e mais fáceis de aparecer.
Como começar hoje sem cair no caminho errado
Se a meta é parar de perder lucro sem perceber, o ponto de partida não é “mais segurança”. É gestão: dar visibilidade para a perda e fazer a operação assumir a prevenção no dia a dia.
- Enxergue a redução de perdas como aumento direto de lucro.
- Coloque gestão de estoque no centro antes de buscar soluções “de vitrine”.
- Controle a quebra (perda identificada) e trate vencido/avaria como rotina de gestão, não como acidente.
- Treine a operação: prevenção não é um departamento isolado, é execução diária.
Para executar agora
- Reforce internamente a ideia: perda tira dinheiro direto do dono; reduzir perda é aumentar lucro.
- Verifique se existe controle de quebra: vencidos, avarias e outros motivos estão sendo identificados e acompanhados?
- Confirme se existe inventário: se não tem, o supermercado está cego para onde a perda acontece.
- Reoriente a prioridade: não tratar prevenção como “só furto”; focar primeiro em falha operacional.
- Coloque a operação como dona da prevenção: menos dependência de “batalhão” e mais treinamento e rotina.